terça-feira, 17, março, 2026

Veja os possíveis candidatos a sucessor do papa Francisco

 

Enquanto os olhos do mundo voltam-se para o céu do Vaticano, de onde fumaça branca ou preta emergirá hoje por volta das 19h (14h de Brasília), dentro da Capela Sistina, 133 purpurados são mantidos isolados, decidindo o nome do sucessor de Francisco. Entre eles, está o homem que, pelos próximos anos, ocupará o trono de São Pedro. Há um velho ditado entre os vaticanistas que vem sendo repetido à exaustão: quem chega ao conclave papa, sai cardeal. Isso significa que nem sempre um dos nomes apontados pela mídia especializada — muitas vezes, soprados pelos próprios purpurados antes da reclusão — será, de fato, o do novo pontífice. Porém, as especulações não são meros palpites, e baseiam-se em critérios, como o perfil que a Igreja procura para determinado momento.

Jogo de cintura é uma das características necessárias agora, destaca o sociólogo da Universidade de Rice, nos Estados Unidos, Craig Considine, autor de diversos livros sobre o cristianismo. “O próximo papa herdará uma Igreja global navegando em um mundo em rápida mudança, lutando com debates internos e pressões externas”, lembra.

Os chamados “príncipes da Igreja” insistem que, dentro da Cúria, não há divisão entre conservadores e progressistas, mas o posicionamento dos próprios cardeais em relação a temas eclesiásticos ou seculares faz transparecer essas diferenças. Para Vicente Paulo Alves, doutor em Ciências da Religião e professor do curso de Teologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), hoje, a capacidade de obter consenso entre as diferentes alas é um ponto a favor de um papável. “Outras características são forte experiência pastoral e diplomática; equilíbrio entre doutrina e abertura pastoral; boa saúde física e mental; capacidade de diálogo inter-religioso e intercultural; e liderança comprovada em dioceses ou em cargos na Cúria Romana”, enumera Alves

 

Desde a morte de Francisco, em 21 de abril, vários nomes têm sido destacados como o potencial pontífice. Ao longo dos últimos dias, alguns se mantêm, enquanto outros entram ou saem da lista. Conheça alguns deles.

 

Jean-Marc Aveline, arcebispo de Marselha, franco-argelino, 66 anos

Nascido na Argélia e de origem andaluz, Aveline passou a maior parte da vida em Marselha. O nome do religioso aparecia, discretamente, nas primeiras listas de papáveis, mas nos últimos dias começou a ganhar mais força entre a imprensa italiana e especializada. Ele é um defensor ferrenho da acolhida à migração e do diálogo inter-religioso, dois pontos que compartilha com o papa Francisco. Aveline foi feito cardeal em 2022 e integra os Dicastérios para os Bispos e para o Diálogo Inter-religioso, funções que exigem que viaje a Roma com frequência. É descrito como afetuoso, focado e aberto. Tinha a amizade de Francisco e defende uma Igreja menos eurocêntrica e mais voltada às chamadas “periferias”.

 

Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, italiano, 70 anos

Durante quase todo o pontificado de Francisco, foi o segundo nome mais importante na hierarquia do Vaticano e, de acordo com o jornal italiano La Stampa, lidera a “boca de urna” no conclave, embora não tenha os dois terços dos votos, necessários para se tornar papa. Parolin é diplomata, participou das negociações que retomaram as relações entre o Vaticano e o México, atuou como núncio na Venezuela e mediou o diálogo entre os Estados Unidos e Cuba. Representa a continuidade, ao mesmo tempo em que sua postura moderada abre a porta para consertar fraturas dentro da Igreja. O cardeal é bem conhecido por líderes mundiais e diplomatas e também conhece os meandros da Cúria romana, o aparato administrativo da Santa Sé.

 

Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, italiano, 60 anos

Conhecedor do Oriente Médio, o franciscano e teólogo italiano fala hebraico e inglês e chegou em Jerusalém em 1999. Em setembro de 2023, tornou-se o primeiro patriarca de Jerusalém em exercício — a principal autoridade católica do Oriente — a ser nomeado cardeal. Um mês depois, eclodiu a guerra entre o movimento islamista palestino Hamas e Israel. Seus repetidos apelos por paz o colocaram em destaque. Alguns de seus colaboradores o veem como um possível sucessor do jesuíta argentino, já que a Ordem Franciscana também defende um estilo de vida austero. O cardeal fez uma visita surpresa a Gaza em 22 de dezembro de 2024, onde presidiu uma missa pré-natalina.

 

Matteo Maria Zuppi, arcebispo de Bolonha, italiano, 69 anos

Membro da Comunidade Romana de Santo Egídio, braço diplomático não oficial da Santa Sé, o discreto e experiente diplomata foi mediador em Moçambique e enviado especial do papa Francisco para a paz na Ucrânia. Representaria uma certa continuidade de Francisco, especialmente na defesa dos mais desfavorecidos, embora seu estilo seja mais moderado que o de Jorge Mario Bergoglio. Nomeado cardeal pelo papa argentino em 2019, Zuppi goza de grande popularidade na Itália, onde é conhecido por viver em uma residência para sacerdotes idosos e se locomover de bicicleta. Defende a acolhida de migrantes e da comunidade LBGTQIAP+ dentro da Igreja.

 

Mario Grech, bispo de Gozo, maltês, 68 anos

É secretário-geral do sínodo: ele chefia o órgão que reúne informações das igrejas locais sobre questões cruciais, como o lugar das mulheres na Igreja ou o casamento de pessoas divorciadas, e o repassa ao papa. Neste papel, em 2020, conseguiu realizar um delicado ato de equilíbrio, seguindo a liderança de Francisco na criação de uma Igreja aberta e atenta e, ao mesmo tempo, levando em conta as preocupações dos conservadores. Tentar criar mais corresponsabilidade na governança da Igreja e torná-la relevante para os fiéis de hoje alarmaram as correntes mais tradicionais, que defendem uma hierarquia de clérigos totalmente masculina. O papa Bento XVI o nomeou bispo de Gozo em 2005 e Francisco o designou cardeal em 2020.

 

Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, luxemburguês, 66 anos

Este cardeal jesuíta, como Francisco, é um apaixonado pela literatura alemã e pela cultura japonesa. Também é membro dos dicastérios de Cultura e Educação, bem como do Diálogo Inter-religioso. Especialista em relações culturais entre Europa e o Extremo Oriente, Hollerich é conhecido como um teólogo firme no dogma, mas aberto a mudanças sociais, assim como o papa argentino. Já demonstrou desdém por aqueles apegados ao antigo rito e ao catolicismo conservado, embora ele diga que gosta da missa em latim e permite que ela continue sendo celebrada em sua diocese, até mesmo em sua catedral.Tem tendência claramente progressista, defendendo mulheres diaconisas e colocando-se aberto à ordenação de sacerdotes do sexo feminino. Também apoia a bênção de uniões homossexuais.

 

Péter Erdö, arcebispo de Budapeste, húngaro,  72 anos

É admirado por seus conhecimentos teológicos e sua abertura a outras religiões. Fervoroso defensor do diálogo com os cristãos ortodoxos, também direciona atenção especial à comunidade judaica. Tem opiniões muito conservadoras sobre os casamentos de divorciados e casais homoafetivos. Intelectual que fala sete línguas, autor de mais de 250 artigos e 20 livros, foi nomeado bispo pelo papa João Paulo II em 2000, arcebispo de Budapeste em 2002 e cardeal um ano depois. Há duas décadas figura na lista dos papáveis e, recentemente, foi criticado pela proximidade com o primeiro-ministro húngaro de extrema-direita Viktor Orban. Se eleito papa, será o segundo pontífice oriundo de um país do antigo bloco comunista.

 

Luis Antonio Tagle, arcebispo emérito de Manilla, 67 anos

Como o papa argentino, é um defensor dos pobres, migrantes e pessoas marginalizadas, a ponto de ser chamado de “Francisco asiático”. Apelidado de “Chito”, foi designado cardeal por Bento XVI em 2012 e já estava entre os papáveis no conclave de 2013. Sempre manteve um estreito laço com Francisco, que lhe encarregou em 2019 a Congregação para a Evangelização dos Povos, que supervisiona as atividades de difusão do catolicismo no mundo. Orador eloquente de voz calma, Tagle ri de suas próprias piadas e injeta humor autocrítico em suas homilias. Mas também é conhecido por ser franco. Em uma cúpula do Vaticano em 2019 sobre combate ao abuso sexual infantil, apontou os escalões superiores da Igreja católica.

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