Na manhã do dia 13 de março, Santa Cruz de la Sierra acordou em alvoroço com a prisão de um dos traficantes mais procurados da América Latina.
Tratava-se de Sebastián Marset, líder do chamado Primeiro Cartel Uruguaio (PCU), capturado enquanto dormia em sua casa na capital de Santa Cruz, considerada a cidade mais rica e elitizada da Bolívia.
Durante o período em que viveu no país, chegou a usar uma identidade brasileira falsa para jogar na liga de futebol de Santa Cruz e cultivou vínculos com grupos criminosos poderosos como o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Em um vídeo publicado em suas redes sociais em outubro de 2025, ele apareceu fortemente armado ao lado de um grupo de pessoas encapuzadas e um símbolo do PCC, afirmando que estavam “preparados para fazer guerra com quem fosse”.
Extraditado aos Estados Unidos — onde é investigado por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro — no mesmo dia em que foi preso, Marset não foi o único alvo das autoridades policiais.
Dias após sua captura, o governo boliviano informou que cinco colombianos e dois equatorianos também foram detidos em Santa Cruz durante uma operação para desarticular organizações criminosas.
As prisões recentes refletem um padrão que tem consolidado a cidade como refúgio de lideranças do crime organizado, inclusive de facções brasileiras.
Em maio do ano passado, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, foi preso durante uma operação conjunta das autoridades bolivianas e da Polícia Federal. Ele foi identificado após tentar renovar sua identidade usando um documento falso.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, Tuta era um dos principais coordenadores de um esquema internacional de lavagem de dinheiro vinculado ao PCC e estava na lista vermelha da Interpol, a Organização Internacional de Polícia Criminal.
O Ministério Público acredita que outros integrantes da facção, que estão foragidos, possam estar escondidos na Bolívia.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que Santa Cruz se tornou um “hub logístico e financeiro para o tráfico”, ao concentrar localização estratégica e infraestrutura que facilitam a atuação do crime organizado.
“É um local que dá condições operativas para esses grupos se fixarem e estabelecerem seus negócios”, diz Rodrigo Chagas, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O vice-ministro de Substâncias Controladas da Bolívia, Ernesto Justiniano, reconhece que Santa Cruz de la Sierra ocupa uma posição estratégica nas rotas do tráfico de drogas, mas afirma que o problema não é exclusivo de seu país, e sim de uma “rede criminosa que opera em diferentes lugares”.


